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Sexta-feira, Maio 05, 2006

[Um] Ousadia

Passava por ele todos os dias.
Abandonava por uma hora e meia o escritório, e subia os cem metros de rua que o separavam do local onde costumava almoçar, que percorria do lado direito do passeio para que o sol - que não chegava ao outro lado da rua - lhe penetrasse por momentos na pele e o relembrasse que o mundo existe além dos números que lhe aparecem oito horas por dia no monitor.
Enquanto o fazia dedicava-lhe sempre um momento, um 'como vai isso hoje?', ao qual o velhote respondia 'o possível', e trocava um sorriso de cumplicidade. Ou simplesmente soltava um 'bom dia' apressado de passagem, porque tinha alguém à espera, mas conservando sempre o sorriso.
Havia dias, porém, em que não era possível o cumprimento, porque o velhote dormia de dia, e ele sempre se perguntou se o velho alguma vez chegava a dormir de noite, porque eram frequentes os dias em que tal acontecia à hora em que o sol mais apertava.
...
O velho dormia ali, vivia ali.
Na porta de um edíficio acabado de construir que está por ocupar há meses, dada a especulação imobiliária que se regista na cidade.
A democracia (faço questão de a escrever com letra minúscula) permite estas coisas; a ironia de ver um espaço habitável desocupado e alguém moribundo a morar na sua porta fechada.
...
Quando acabava de trocar uma saudação com o velho subia alguns metros a calçada e cruzava a porta do departamento de investigação de uma das forças policiais, que ostensivamente se rodeava de agentes ao serviço da ordem e paz pública comum - outra ironia evidente, uma força em prol da paz comum; que não liga a um velho moribundo que precisa de comer.
...
No restaurante absorvia-se por vezes a pensar o que o velho pensaria dos livros que lhe deixava, mas nunca se atrevera a perguntar-lhe, pois não era pessoa tão humana ao ponto de se permitir trocar impressões de maior profundidade com um velho moribundo a quem ninguém ligava ao passar e que, devido ao cheiro que o rodeava obrigava a maior parte dos que por ali passavam a o fazer contornando-o, ou passando apressadamente.
...
Um dia questionou-se o porquê de ainda não o ter feito. O velho havia de ter qualquer coisa interessante para dizer, e se não tivesse, pelo menos sempre podia ser que ao desabafar algumas das suas mágoas cá para fora se sentisse menos consumido pela existência.
...
E decidiu então que seria diferente dos outros; inchou-se de leveza e rompeu o seu próprio preconceito interior de emtir um juízo acerca da opinião que um velho moribundo abandonado à soleira de uma porta de vidro pudesse ajuízar sobre a essência de toda uma vida, e o porquê de ela existir.
...
Nesse dia, como de costume pedira a dose dele modestamente acima do que lhe chegava para satisfazer o seu apetite, até mais tarde, quando pudesse repetir, e embrulhou o excendente para entregar ao velho, ou deixar ao lado das almofadas esburacadas e amontoadas ao lado dos livros, por cima destes, como de costume caso ele dormisse. Pagou, pegou nas suas coisas e saiu para a rua.
...
Mas do topo da rua avistou logo a ambulância e percebeu que o destino lho impediria. Pressentiu que chegara tarde demais e que o velho, que hoje não lhe tinha dirigido uma palavra porque estava imóvel e de olhos fechados, afinal não o fez porque dormia, como ele tinha pensado ao passar.
...
O velho estava morto, já nada havia a fazer.
...
Sentiu-se o assassino do velho; por ter ousado a curiosidade de perguntar a uma alma abandonada por todas as outras até ao preciso momento da morte - momento esse onde prontamente apareceu alguém para o recolher - o significado da vida.
...
Mas enfim confortou-se, por saber que o velho só podia estar melhor onde estava agora do que abandonado às liberdades da democracia onde ninguém livremente o ajudou, e sentiu-se o seu anjo da guarda por lhe ter aberto a porta para o fim da humilhação.

Comments on "[Um] Ousadia"

 

Blogger agallu declarou ... (11:40 PM, Maio 05, 2006) : 

triste a nossa europa democratica...


besos y un tranquilo fin de semana

 

Blogger .:: suspect zer0 ::. declarou ... (3:50 AM, Maio 06, 2006) : 

tinha aquela foto que tirei na "land of the free, home of the brave"... espero que não te importes.

 

Blogger agallu declarou ... (11:52 AM, Maio 06, 2006) : 

y por que me va a importar???No eres tu el que siempre habla de libertad???[lol]

me encanta este blog tuyo!!!!!!

palante nene!!!!!

 

Blogger .:: suspect 0ne ::. declarou ... (3:13 PM, Maio 06, 2006) : 

troquei a foto, perdoa-me...
mas é que acho esta mais de acordo com a imagem que tenho na cabeça.
eu ia colocá-la de início, mas não estava a conseguir, talvez problema do meu pc, ou quem sabe do blogger.

 

Blogger Vanda Baltazar declarou ... (4:39 PM, Maio 06, 2006) : 

Não conheço a outra, mas acho esta foto completamente inserida no (con)texto...que mostra bem a indiferença, a quase frieza com que vivemos numa cidade, sempre apressada...

e no entanto...somos cultos... nascemos (a maioria) de familias catolicas...temos alguns trocos a mais para cigarros e cafes, estamos elucidados, ha muito que nos disseram que a sida não se pega pela solidariedade nem pela caridade...

parecemos homens das cavernas...ou pior ainda. Em certos dias. Quando chove, ja reparaste?...

Um beijo e obrigada pelo teu comentario (adorei a força, a profundidade, a raiva submersa) no meu post!

 

Blogger .:: suspect zer0 ::. declarou ... (9:17 AM, Maio 09, 2006) : 

agallu: pois... liberdade.
beijo.

.:: suspect 0ne ::.: estás perdoado, pá!
três avé-marias e um pai nosso, paga a bula à saída.

vanda baltazar: parecemos homens das cavernas
se reparares bem, quais foram, realmente, as evoluções registadas desde as cavernas?
a roda, o dinheiro, as armas, o petróleo, a destruição massiva, a poluição?
bom...

 

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