[de Rui Costa Pinto para a Visão OnLine]
A participação de Elie Weisel, Prémio Nobel da Paz, em 1986, e um dos sobreviventes do holocausto (Shoa, como é designado em hebraico), num acto público promovido por George Clooney, que se tem destacado pela denúncia do primeiro genocídio do século XXI, tem um significado muito especial. As iniciativas mediáticas do actor e realizador norte-americano em relação a Darfur deixam a nu o enorme vazio e o cinismo criminoso que rege a actual ordem mundial.Desde que eclodiu em Fevereiro de 2003, o conflito no Darfur já fez entre 180 mil e 300 mil mortos e mais de dois milhões de deslocados. Não é por acaso que George Clooney afirma: «Não podemos virar a cabeça e olhar para o lado esperando que de uma maneira ou de outra tudo isso vá desaparecer, porque se o fizermos é o que vai acontecer-lhes. Eles vão desaparecer e só ficará a História para nos julgar». A limpeza étnica é tão sinistra como a condenação de uma parte de um continente inteiro à fome, à doença e à guerra. Invocar a memória das vítimas do regime nazi quando se esquece o massacre de milhões de inocentes africanos é intelectualmente desonesto e inaceitável. A tentativa de extremínio do povo judeu só foi por diante por se ter tolerado, inicialmente, a monstruosidade da criação da solução final. Hoje, na era da globalização, já não há justificação para ignorar o que se passa no Biafra, Ruanda e Sudão, entre muitos outros cantos do mundo. Ninguém é insensível ao significado do memorial de Yad Vashem, em Jerusalém. Ninguém pode ficar indiferente às imagens e relatos diários da condenação à morte de civis africanos às mãos de líderes corruptos e facínoras, que enchem os bolsos do Ocidente. A pretexto da garantia do fornecimento de petróleo, de um punhado de contratos milionários que alimentam as insaciáveis indústrias de defesa e de uns míseros negócios regados com comissões fabulosas, os líderes de algumas democracias ocidentais têm perpetuado regimes políticos criminosos. A manutenção do desastre de Darfur é a prova que nada mudou desde Auschwitz-Birkenau, Sobibor, Belzec, Treblinka, Bergen-Belsen e Chelmno. Afinal, não é o método que importa. É a barbárie, por mais violenta ou sofisticada que possa ser. |